sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A Voz do Silêncio - Terceiro Fragmento

A Voz do Silêncio
Helena Blavatsky


Terceiro Fragmento – As Setes Portas

UPADHYA 96, a escola está feita. Anseio pela sabedoria. Rasgaste já o véu que escondia o caminho secreto e ensinaste o Yana 97 superior. O teu servo aqui está, pronto para que o guies.

Está bem, Shravaka 98. Prepara-te, porque terás de seguir sozinho, O mestre só pode apontar a direção. O caminho é um para to dos, o meio de chegar à meta deve variar de peregrino para peregrino.

Qual é que vais escolher, ó de coração indômito? O Samtan 99 da doutrina dos olhos, o quádruplo Dhyana, ou abrirás caminho através das Paramitas 100, seis em número, nobres portas da virtude conduzindo a Bodhi e a Prajna, sétimo passo da sabedoria?

O caminho árduo do quádruplo Dhyana ondula montanha acima. Três vezes grande é aquele que chega ao píncaro altíssimo.

As alturas de Paramita são atravessadas por um caminho ainda mais íngreme. Tens de forçar o teu caminho através de sete portas, sete fortalezas guardadas por poderes cruéis e ardilosos - paixões encarnadas.

Anima-te, discípulo; tem sempre presente o preceito áureo. Uma vez passada a porta Srotapatti 101 “aquele que entrou para o rio” cujo pé foi posto sobre o leito do rio nirvânico nesta vida ou em qualquer vida futura, tem apenas diante dele mais sete nascimentos, ó homem de vontade de ferro.

Repara. Que vês tu diante dos teus olhos, ó aspirante à sabedoria divina?

“O manto da escuridão cobre a profundeza da matéria; nas suas dobras me debato. Aprofundase, Senhor, à medida que para ele olho; um gesto da tua mão o desfaz. Mexe-se uma sombra, arrastando-se como as dobras coleantes da serpente... Cresce, alastra-se, e desaparece na escuridão”.

É a sombra de ti próprio fora do Caminho, caindo sobre a escuridão dos teus pecados.

“Sim, Senhor, vejo o Caminho; o seu princípio fincado no lodo, o seu cimo perdido na nirvânica luz gloriosa: e agora vejo os portais cada vez mais estreitos na estrada árdua e espinhosa para Jnana" 102.

Vês bem, Lanu. Esses portais levam o aspirante a atravessar o rio para a outra margem 103. Cada portal tem uma chave de ouro que abre a sua porta; e essas chaves são:

1. Dana, a chave da caridade e do amor imortal.
2. Shila, a chave da harmonia nas palavras e nos atos, a chave que contrabalança a causa e o efeito, não deixando mais espaço à ação cármica.
3. Kshanti, a paciência suave, que nada pode alterar.
4. Vairagya, a indiferença ao prazer e à dor, a ilusão vencida, só a verdade vista.
5. Virya, a energia indômita que abre o seu caminho para a verdade suprema, erguendo-se acima das mentiras terrenas.
6. Dhyana, cuja porta de ouro, uma vez aberta, leva o Naljor 104 para o reino de Sat, o eterno, e para a sua contemplação sem fim.
7. Prajna, cuja chave faz de um homem um Deus, criando-o um Bodhisattva, filho dos Dhyanis.

Tais são as chaves de ouro para esses portais.

Antes que te possas acercar do último, ó tecedor da tua liberdade, tens de possuir estas Paramitas da perfeição - as virtudes transcendentais em número de seis e dez - por esse longo caminho.

Porque, ó discípulo, antes que estivesses apto a encontrar o teu Mestre frente a frente, o teu Senhor luz a luz, que foi que te disseram?

Antes que te possas acercar da porta mais próxima tens de aprender a separar o teu corpo do teu espírito, e a viver no eterno. Para isto, tens de viver e respirar em tudo, como tudo que vês respira em ti; sentir-te existir em todas coisas, e todas as coisas em ti.

Não deixarás os teus sentidos fazer do teu espírito campo para o seu recreio.

Não separarás o teu ser do Ser, e do resto, mas fundirás o oceano na gota de água, e a gota de água no oceano.

Assim estarás em acordo com tudo quanto vive; ama os homens como se eles fossem os teus condiscípulos, discípulos do mesmo Mestre, filhos da mesma boa mãe.

Professores há muitos; a Alma-Mestra 105 é uma, Alaya, a Alma Universal. Vive nesse Mestre como o seu raio em ti. Vive nos teus semelhantes como eles nela.

Antes que estejas no limiar do Caminho; antes que entres pela primeira porta, tens de fundir os dois em um e sacrificar o pessoal à Personalidade impessoal, e assim destruir o caminho entre as duas - Antahkarana 106.

Tens de estar pronto para responder a Dharma, a lei austera, cuja voz te perguntará ao teu primeiro passo, ao teu passo inicial.

“Obedeceste a todas as regras, ó de altas esperanças?

“Puseste o teu coração e a tua mente de acordo com a grande mente e o grande coração de toda a humanidade? Porque, como a voz sonora do grande rio, na qual todos os sons têm o seu eco 107, assim deve o coração daquele que queira entrar para o rio vibrar em resposta a cada suspiro e a cada pensamento de tudo quanto vive e respira”.

Os discípulos podem ser comparados a cordas da vina que produz eco nas almas; a humanidade, à sua caixa de ressonância; a mão que a vibra, à respiração melodiosa da Grande Alma do Mundo. A corda que não vibra ao toque o Mestre, em harmonia suave com todas as outras, quebrase e é deitada fora.

Assim as mentes coletivas dos Lanu-Shravakas. Têm de ser afinadas para vibrar de acordo com o espírito do Upadhya - uno com a Super-Alma - ou se quebrará. Assim fazem os irmãos da sombra - os assassinos das suas Almas, a horrível seita dos DadDugpa 108.

Puseste o teu ser de acordo com a grande dor da humanidade, ó candidato à luz?

Fizeste assim?... Podes entrar. Antes, porém, que dês um passo no duro caminho da tristeza, é bom que aprendas quais são os perigos da estrada.

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Armado com a chave da caridade, do amor e da terna misericórdia, podes estar tranqüilo ante a porta de Dana, a porta que fica à entrada do Caminho.

Vê, ó ditoso peregrino! O portal que tens diante de ti é alto e largo, parece de fácil acesso. A estrada que o atravessa é reta, suave e relvada. É como uma clareira cheia de sol no meio da floresta escura e funda, um lugar na terra refletindo o paraíso de Amitabha 109. Ali rouxinóis de esperança e aves de penas radiosas cantam em bosques verdejantes, trilando triunfos aos peregrinos sem receio. Cantam as cinco virtudes do Bodhisattva, a fonte quíntupla do poder do Bodhi, e dos sete degraus no conhecimento.

Passa, segue para diante!. Trouxeste a chave: estás salvo.

Para a segunda porta a entrada é verde também, mas é íngreme e serpenteia montanha acima - sim, até ao cimo rochoso da montanha. Névoas cinzentas cobrirão o seu píncaro rude e pedregoso, e para além será tudo escuridão. À medida que avança, o cântico da esperança soa cada vez mais débil no coração do peregrino. O arrepio da dúvida atinge-o; os seus passos tornam-se mais incertos.

Acautela-te com isto, ó candidato; acautela-te contra o medo que, como as asas negras e silenciosas do morcego noturno, se alastra entre o luar da tua Alma e a tua grande meta que surge na distância, muito longe ainda.

O medo, ó discípulo, mata a vontade e de mora a ação. Se é falho da virtude Shila, o peregrino tropeça, e pedras cármicas ferem-lhe os pés pelo caminho pedregoso.

Pisa com segurança, ó candidato. Banha a tua alma na essência de Kshanti; porque te acercas agora do portal que tem esse nome, a porta da fortaleza e da paciência.

Não feches os olhos, nem percas de vista Dorje 110; as setas de Mara atingem sempre o homem que não chegou ao Vairagya 111.

Não tremas. Sob o hálito do medo enferruja a chave de Kshanti; a chave ferrugenta já não pode abrir.

Quanto mais avançares, mais e mais serão os perigos que cercarão os teus passos. O caminho que segue para diante é iluminado por uma chama - a luz da audácia ardendo no coração. Quanto mais ousares, mais conseguirás. Quanto mais temeres, mais a luz esmorecerá - e só ela te pode guiar. Porque como o último raio do sol no píncaro do alto monte é seguido pela noite escura quando cessa, assim é a luz do coração. Quando se apaga, uma sombra negra e ameaçadora cairá do teu co ração sobre o Caminho, e prenderá os teus pés pávidos no chão.

Acautela-te, discípulo, com essa sombra letal. Nenhuma luz que brilhe do Espírito pode dispersar a escuridão da Alma inferior, a não ser que todo o pensamento egoísta de lá tenha fugido, e que o peregrino diga: “Abdiquei deste corpo que passa; destruí a causa; as sombras, meros efeitos, não podem mais subsistir”. Por que teve lugar agora a última grande batalha, a guerra final entre o ser superior e o inferior. Vê, o próprio campo da batalha se engolfou na grande guerra, e deixou de existir.

Mas, uma vez passada a porta de Kshanti, está dado o terceiro passo. O teu corpo é teu escravo. Prepara-te agora para a quarta porta, a porta das tentações que enleiam o homem interior.

Antes que possas acercar-te dessa meta, antes que a tua mão se erga para levantar o fecho da quarta porta, deves ter dominado to das as alterações mentais em ti, e matado o exército das sensações-pensamentos que, sutis e insidiosas, se introduzem, sem que tu queiras, no sacrário luzente da Alma.

Se não queres que elas te matem, deves tornar inofensivas as tuas criações, os filhos dos teus pensamentos, invisíveis, impalpáveis, que enxameiam em torno à humanidade, prole e herdeiros do homem e das suas presas terrestres. Tens de estudar o vácuo do aparente mente cheio, o cheio do aparentemente vazio. Ó aspirante intemerato, olha bem para dentro do poço do teu coração, e responde. Conheces bem os poderes da Personalidade, ó observador das sombras externas?

Se os não conheces, está perdido.

Porque, no quarto caminho, a mais leve brisa da paixão ou do desejo fará tremer a luz firme nos muros brancos e puros da Alma. A mais pequena onda de ânsia ou de saudade pelos dons ilusórios de Maya, ao passares por Antahkarana - o caminho que há entre o teu Espírito e a tua Personalidade, a estrada-real das sensações, as despertadoras de Ahamkara 112 - um pensamento rápido como a luz do relâmpago far-te-á perder os teus três prêmios - os três prêmios que ganhaste. Aprende que no Eterno não há mudança.

“Abandona para sempre as oito cruéis angústias; se não, por certo que não chegaste à sabedoria, nem ainda à libertação”, diz o grande Senhor, o Tathagata da perfeição, “aquele que seguiu as passadas dos seus predecessores 113.

Austera e exigente é a virtude de Vairagya. Se queres possuir o seu caminho, tens de ter a tua mente, as tuas percepções mais do que nunca livres da ação mortal.

Tens de te saturar do puro Alaya, de te identificar com o pensamento da alma da Natureza. Unificado com ele és invencível; separado dele, torna-te o campo de recreio de Samvritti 114, origem de todas as ilusões do mundo.

Tudo é transitório no homem, salvo a pura e clara essência do Alaya. O homem é o seu raio cristalino; por dentro um raio de luz imaculada, uma forma de barro material na superfície inferior. Esse raio é o teu guia de vida e a tua Personalidade verdadeira, a sentinela e o pensador silencioso, a vítima do teu ser inferior. A tua Alma não pode ser ferida senão através do teu corpo pecador; domina e rege os dois e estarás salvo quando estiveres cruzando as proximidades da Porta do Equilíbrio.

Anima-te, audaz peregrino, para a outra margem. Não dês ouvidos ao segredar das hostes de Mara; afasta os tentadores, esses espíritos de má índole, os Lhamayn115 no espaço infinito.

Mantém-te firme! Acerca-te agora do por tal médio, da porta da dor, com as suas dez mil armadilhas.

Domina os teus pensamentos, ó ansioso pela perfeição, se queres atravessar o limiar dela.

Domina a tua alma, ó ansioso pelas verdades eternas, se queres chegar à meta.

Concentra o olhar da tua alma na luz única e pura, na luz que nada afeta, e serve-te da tua chave de ouro.

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O árduo trabalho está feito, a tua tarefa quase finda. O grande abismo, que se abria para te tragar, está quase passado.

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Atravessaste a vala que circula a porta das paixões humanas. Venceste já a Mara e à sua horda furiosa.

Tiraste a impureza do teu coração e sangraste-o de desejos impuros. Mas, ó combatente glorioso, a tua tarefa ainda não está no fim. Constrói alto, Lanu, o muro que há de defender a tua Ilha Sagrada 116, o dique que protegerá o teu espírito do orgulho e do contenta mento ao pensares no teu grande feito.

Um sentimento de orgulho macularia a tua obra. Sim: ergue forte o muro, não vá o impulso feroz das ondas em guerra, que sobem e batem na sua costa, vindas do grande Mundo do oceano de Maya, engolfar o peregrino e a ilha; - sim, no próprio momento da vitória.

A tua “ilha” é a corça, os teus pensamentos os galgos que cansam e perseguem o seu avanço até ao rio da vida. Ai da corça que é atingida pelos galgos malignos antes que chegue ao vale do refúgio - Jnana-Marga 117, “o caminho do puro conhecimento”.

Antes que te possas estabelecer em Jnana Marga e chamar-lhe teu, a tua Alma tem de se tornar como o fruto maduro da mangueira: mole e doce como a sua polpa dourada para as angústias dos outros, duro como o caroço desse fruto para as tuas próprias dores e angústias, ó triunfador da alegria e da tristeza.

Torna a tua Alma dura contra as armadilhas da tua personalidade; faze com que ela mereça o nome de Alma de Diamante.

Porque, como o diamante enterrado fundo no coração vivo da terra não pode refletir as luzes terrenas, assim são a tua mente e a tua Alma; imersos no Jnana-Marga, nada devem refletir do meio ilusório de Maya.

Quando chegares a esse estado, os portais que tens de vencer no teu caminho abrem de par em par as suas portas, para que passes e os poderes maiores da natureza não têm força para te embargar o passo. Serás dono do sétuplo caminho: mas só então o serás, ó candidato a provas indizíveis.

Até ali, espera-te uma tarefa muito mais difícil: tens de te sentir todo pensamento, e contudo exilar da tua alma todos os pensamentos.

Tens de chegar àquela fixidez de espírito em que nenhuma brisa, por mais que cresça, pode soprar um pensamento material para dentro dele. Assim purificado, o sacrário deve ficar vazio de toda a ação, som ou luz da terra; assim como a borboleta, atingida pela geada, cai morta no limiar - assim todos os pensamentos materiais devem cair mortos ante o tempo.

Vê que está escrito:

“Antes que a chama dourada possa arder com um brilho firme, deve a lâmpada estar guardada num lugar livre de toda a aragem”. Exposta à brisa volúvel, a chama tremerá, e, tremendo, lançará sombras enganosas, negras, e sempre variantes, sobre o sacrário branco da Alma.

E então, ó perseguidor da verdade, a alma da tua mente tornar-se-á como um elefante louco, que se enfurece na floresta. Tomando as árvores por inimigos vivos, morre ao tentar matar as sombras sempre incertas bailando no muro dos rochedos inundados de sol.

Acautela-te, não vá a tua alma, ao cuidar da tua Personalidade, perder pé no terreno do conhecimento Deva.

Acautela-te, não vá a tua Alma, ao esquecer a Personalidade, perder o seu domínio sobre o seu espírito trêmulo, perdendo assim o justo prêmio das suas conquistas.

Acautela-te contra a mudança, porque a mudança é o teu grande inimigo. A mudança lutará contigo, afastar-te-á, atirar-te-á para fora do caminho que trilhas, para dentro de pântanos viscosos de dúvida.

Prepara-te e acautela-te a tempo. Se experimentaste e falhaste, ó lutador indômito, não percas, porém, a coragem: continua a lutar, e volta ao embate repetidamente.

O guerreiro destemido, ainda que o sangue da sua vida lhe escorra das feridas abertas, continuará a atacar o inimigo, expulsá lo-á do seu forte, vencê-lo-á mesmo, antes que ele próprio expire. Agi, pois, todos vós que falhais e que sofreis, como esse soldado; e do forte da vossa Alma expulsai todos os vossos inimigos - a ambição, a cólera, o ódio, até a sombra do desejo - mesmo quando tiverdes falhado...

Lembra-te, tu que lutas pela libertação humana 118, que cada falência é um triunfo, e cada tentativa sincera a seu tempo recebe o seu prêmio. Os santos germes que brotam e crescem invisíveis na Alma do discípulo, dobram como juncos mas não quebram, nem podem eles perder-se. Mas quando a hora soa, desabrocham 119.

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Mas se vieste preparado, então não temas nada.

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Daqui em diante é claro o teu caminho, que vai direto à porta de Virya, o quinto dos sete portais. Estás agora no caminho que conduz ao porto do Dhyana, o sexto portal, o portal Bodhi.

A porta do Dhyana é como um vaso de alabastro, branco e transparente; dentro dele arde uma luz firme e dourada, a chama de Prajna, que de Atman irradia.

Esse vaso és tu.

Afasta-te dos objetos dos sentidos, seguiste pelo caminho da visão, pelo caminho da audição, e estás agora na luz do conhecimento. Chegaste agora ao estado de Titiksha 120.

Ó Naljor, estás salvo.

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Aprende, vencedor dos pecados, que uma vez que um Sowani 121 tenha atravessado o sé timo caminho, toda a natureza estremece de alegria e se sente submissa. A estrela prateada eis que cintila esta nova às flores da noite, o riacho murmura esse conto às pedras; as ondas escuras do oceano o cantam aos rochedos cheios de espuma, as brisas perfumadas cantam-no aos vales, e os pinheiros altivos segredam misteriosamente: “Surgiu um Mestre, um Mestre do Dia" 122.

Ele se ergue agora como uma coluna branca ao ocidente, sobre cuja fronte o sol nascente do pensamento eterno derrama as suas primeiras ondas gloriosas. O seu espírito, como um oceano ilimitado em calmaria, alastra-se no espaço sem praias. Ele tem a vida e a morte na sua mão poderosa.

Sim, ele é poderoso. O poder vivo tornado livre nele, esse poder que é Ele próprio, pode erguer o tabernáculo da ilusão muito acima dos Deuses, a cima dos grandes Brahm e Indra. É agora, por certo, que ele conseguirá o seu grande prêmio!

Não usará ele os dons, que isso confere, para seu descanso e felicidade, para seu proveito e glória tão bem ganhos - ele o subjugador da grande ilusão?

Não, ó candidato à ciência secreta da natureza! Se quiseres seguir os passos do santo Tathagata, esses dons e poderes não são para ti próprio. Irás assim por um dique às águas nascidas em Someru 123? Irás desviar o rio para teu serviço, ou fazê-lo subir até à sua nascente, pelos cerros dos ciclos?

Se quiseres que esse rio de conhecimento bem ganho, de sabedoria de divina origem, fique uma corrente pura, não deves deixar que ele se torne um lago estagnado.

Aprende: se quiseres tornar-te cooperador de Amitabha, a Idade Ilimitada, então deves derramar a luz adquirida, como os dois Bodhisattvas 124, sobre a extensão de todos os três mundos 125.

Aprende que a corrente de conhecimento sobre-humano e a sabedoria Deva, que adquiriste, deve, de ti, o canal de Alaya, ser derramada para outro leito.

Aprende, ó Naljor, tu do caminho secreto, que as suas águas puras devem ser emprega das para tornar mais doces as ondas amargas do oceano - esse grande mar de sofrimento formado pelas lágrimas dos homens.

Ai de ti! Uma vez que te tornaste como a estrela fixa no alto céu, esse claro orbe celeste deve, das profundezas do espaço, brilhar para todos, menos para si mesmo; dar luz a todos, e a nenhum tirála.

Ai de ti! Uma vez tornado como a neve pura nos vales das montanhas, fria e insensível ao tato, quente e protetora para a semente que dorme fundo sob o seu seio - agora é essa neve que deve receber a geada mordente, os vendavais do norte, protegendo assim do seu dente fino e cruel a terra que contém a colheita prometida, a colheita que dará pão aos que têm fome.

Por ti próprio condenado a viver através de Kalpas futuros sem que os homens te vejam ou te agradeçam; apertado como uma pedra contra inúmeras outras que formam o “Muro da Guarda" 126, tal é o teu futuro se passares a sétima porta. Construído pelas mãos de muitos Mestres da Compaixão, erguido pelas suas torturas, cimentado pelo seu sangue, ele proteje a humanidade, desde que o homem é homem, livrando-a de novas e maiores angústias e tristezas.

O homem, porém, não o vê, não o quer ver, nem quer dar ouvidos à palavra da Sabedoria, porque não a conhece.

Mas tu ouviste-a, tu sabes tudo, ó de Al ma ansiosa e imaculada... e tens de escolher. Escuta ainda.

No Caminho de Sowan, ó Srotapatti, segues seguro. Sim, nesse Marga, onde apenas a escuridão vem ao encontro do peregrino cansado, onde, rasgadas por espinhos, as mãos gotejam sangue, os pés são rasgados por pedras agudas e duras, e Mara emprega as suas armas mais fortes para além dele, imediata mente há um grande prêmio.

Calmo e impassível, o peregrino vai até ao rio que conduz ao Nirvana. Ele sabe que quanto mais os seus pés sangrarem, mais lavado e limpo ele próprio ficará. Ele sabe bem que depois de sete breves e transitoriais nascenças, o Nirvana lhe pertencera...

Tal é o caminho de Dhyana, o porto do iogue, a meta sagrada que o Srotapattis buscam.

Não é assim quando atravessou e conquistou o caminho Arhat 127.

Ali Klesha 128 é destruído para sempre, e as raízes de Tanha 129 arrancadas; mas pára, discípulo... escuta uma palavra ainda. Podes tu destruir a divina compaixão? A compaixão não é um atributo. É a Lei das leis - a harmonia eterna, o próprio Ser de A1aya, uma essência universal sem praias, a luz da justiça eterna, o acordo de tudo, a lei do eterno amor.

Quanto mais com ela te unificares, fundindo o teu ser no seu ser, tanto mais a tua Alma se unirá àquilo que é, tanto mais te tornarás a Compaixão Absoluta 130.

Tal é o caminho Arya, caminho dos Budas da perfeição.

Mas o que significam os livros sagrados que te fazem dizer:

“Om! Creio que nem todos os Arhats obtêm o doce gozo do caminho nirvânico.

“Om! Creio que no Nirvanadharma não entram todos os Budas" 131.

Sim, no caminho de Arya já não és um Srotapatti, és um Bodhisattva 132. Atravessaste o rio. É certo que tens direito à veste do Dharmakaya; mas um Samhbogakaya é maior do que um Nirvani, e maior ainda é um Nirmanakaya - o Buda da Compaixão 133.

Inclina agora a tua fronte e escuta bem, ó Bodhisattva - a compaixão fala e diz:

“Pode haver felicidade quando tudo quanto vive tem de sofrer? Quererás salvar-te ouvindo todo o mundo chorar?”

Agora ouviste o que se disse:

Chegarás ao sétimo degrau e atravessarás a porta do conhecimento final, mas apenas para tomares a dor por esposa - se queres ser Tathagata, seguir os passos do teu predecessor, conservar-te altruísta até ao fim sem fim.

Estás iluminado - escolhe o teu caminho.

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Olha a luz suave que inunda o céu oriental. Céu e terra unem-se em gestos de adoração. E dos poderes quadruplamente manifestados sobe um cântico de amor, tanto do fogo que brilha como da água que corre, da terra perfumada e do vento que passa.
Escuta!... do grande e insondável vórtice daquela luz dourada em que o Vencedor se banha, toda a voz sem palavras da natureza se ergue para em mil tons proclamar:
Sa-vos, ó homens de Myalba. 134.
Um peregrino regressou da “outra margem” 
Nasceu um novo Arhan. 135.
Paz a todos os seres. 136.

FIM


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Jesus Cristo segundo São João - Capítulo 09

JOÃO 9


Cura do cego de nascença (Mt 9,27-31; 20,29-34; Mc 8,22-26; 10,46-52; Lc 18,35-43) - 1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: «Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?» 3Jesus respondeu: «Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. 4Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. 5Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.»

6Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama 7e disse-lhe: «Vai, lava-te na piscina de Siloé» - que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e regressou a ver. 8Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam: «Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?» 9Uns diziam: «É ele mesmo!» Outros afirmavam: «De modo nenhum. É outro parecido com ele.» Ele, porém, respondia: «Sou eu mesmo!»

10Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?» 11Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» 12Perguntaram-lhe: «Onde está Ele?» Respondeu: «Não sei.»

13Levaram aos fariseus o que fora cego. 14O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado. 15Os fariseus perguntaram-lhe, de novo, como tinha começado a ver. Ele respondeu-lhes: «Pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver.» 16Diziam então alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.» Outros, porém, replicavam: «Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?» Havia, pois, divisão entre eles. 17Perguntaram, então, novamente ao cego: «E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?» Ele respondeu: «É um profeta!»

18Ora os judeus não acreditaram que aquele homem tivesse sido cego e agora visse, até que chamaram os pais dele. 19E perguntaram-lhes: «É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?» 20Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si.»

22Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias. 23Por isso é que os pais disseram: ‘Já tem idade, perguntai-lhe a ele’.

24Chamaram, então, novamente o que fora cego, e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!» 25Ele, porém, respondeu: «Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo.» 26Eles insistiram: «O que é que Ele te fez? Como é que te pôs a ver?» 27Respondeu-lhes: «Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?» 28Então, injuriaram-no dizendo-lhe: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! 29Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!»

Replicou-lhes o homem: 30«Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista! 31Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. 32Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. 33Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada.» 34Responderam-lhe: «Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?» E puseram-no fora.

35Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe: «Tu crês no Filho do Homem?» 36Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?» 37Disse-lhe Jesus: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo.» 38Então, exclamou: «Eu creio, Senhor!» E prostrou-se diante dele.

39Jesus declarou: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.»

40Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram isto e perguntaram-lhe: «Porventura nós também somos cegos?» 41Jesus respondeu-lhes: «Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.»



Continua...

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Corpus Hermeticum XIV

CORPUS HERMETICUM
De Hermes Trismegisto


XIV - DE DEUS CRIADOR (HERMES TRISMEGISTOS A ASCLÉPIOS)

1 Como meu filho Tat, na tua ausência, quis ser instruído acerca da natureza do universo e como não me permitiu postergar esta instrução, como é natural, pois é meu filho a um neófito no conhecimento das coisas particulares, fui forçado a tratá-las mais longamente, a fim de que a doutrina lhe fosse mais fácil de seguir. Mas para ti, quis, do que foi dito, escolher a enviar sob forma de epístola os assuntos mais importantes, exprimindo-os de maneira mais secreta tendo em vista tua idade mais avançada e a ciência que adquiriste da natureza das coisas.
2 Se as coisas que aparecem aos sentidos vieram a ser e vêm a ser, e se as coisas vindas a ser, vêm a ser não por elas mesmas mas por um outro e se muitas coisas vieram a ser, ou melhor, se vêm a ser as coisas que aparecem aos sentidos e as coisas diferentes e dissemelhantes e se as coisas vindas a ser, vêm a ser por um outro, existe alguém que criou as coisas e este alguém não veio a ser, se se deseja que seja anterior às coisas vindas a ser. Pois as coisas vindas a ser, como eu o declaro, vem a ser por uma outra: ora nada pode existir antes do conjunto das coisas que vieram a ser, senão o único que não veio a ser.
3 Este é o mais possante e único, e é o único realmente sábio nas coisas, pois nada há que lhe seja anterior: pois é o Primeiro na ordem do número e na ordem da grandeza e pela diferença que existe entre ele e os seres criados pela continuidade de sua criação. Por outra parte, os seres criados são visíveis, mas ele é invisível: é justamente por isto que cria, para tornar-se visível. Cria todo o tempo: conseqüentemente é visível.
4 Eis como é necessário pensar, e logo, admirar, e isto posto, considerar-se bem- aventurado pois conheceu-se o Pai. O que há de mais doce que um verdadeiro pai? Que é ele e como conhecê-lo? É acertado atribuir-lhe, e somente, o nome de Deus, ou aquele de Criador, ou de Pai, ou ainda os três? Deus devido à sua potência, Criador pela sua atividade, Pai pelo Bem? Pois é potência, sendo diferente das coisas vindas a ser e é atividade pela qual as coisas vêm a ser.
Detendo toda vaga de palavras e os discursos vãos, é necessário apegar-se a esses dois conceitos: o que é criado e o que criou, pois entre esses dois nada existe, nem mesmo um terceiro termo. 5 Em Tudo o que concebes, em tudo que ouves dizer, lembra-te desses dois e convence-te que tudo se resume neles, sem dúvida, nem acerca das coisas do alto, nem das coisas de baixo, nem das coisas divinas, nem das coisas mutáveis, ou das coisas das profundezas; pois tudo que existe se resume em duas coisas: o que foi criado e o que criou, impossível é separar um do outro; pois o que cria não pode ser separado do que é criado, cada um dos dois está submetido a isto e nada mais, é por esta razão que nenhum pode ser separado do outro e mais ainda de. si mesmo.
6 Se o criador nada mais é que a função criadora única, simples, incomposta, esta função deve necessariamente criar a si mesma, pois o criar daquilo que é criado é produção do ser e tudo o que é produzido não pode existir como produzido por si mesmo, é produzido necessariamente por um outro, sem o criador portanto, o que vem a ser, nem vem a ser nem existe. Uma vez separado do outro, cada um desses termos perdeu sua própria natureza, privado que foi de seu complemento. Se se reconhece então que a realidade se resume em dois termos, o que foi criado e o que criou, esses dois formam uma unidade em virtude de sua unidade, um à frente o outro seguindo: o que marcha à frente é Deus criador, o que segue, e coisa criada; qualquer que seja.
7 E não te ressabies pela diversidade das coisas criadas, no medo de degradar a Deus e acarretar-lhe uma falta de glória: para ele é uma glória criar todos os seres e é isto que é conforme ao corpo de Deus, o fato de criar. Mas o criador nada possui que seja feio ou mau: pois

esses são acidentes inseparavelmente ligados à geração como a oxidação ao bronze ou a banha ao corpo. Ora não foi o operador que produziu a oxidação, nem os pais que fizeram a banha, nem Deus que criou o mal. Mas é a duração das coisas criadas que produz esta forma de pestilência maléfica e eis a razão de ter feito, Deus, a transformação como uma purificação das coisas criadas.
8 Bem, se ao pintor é permitido fazer o céu e os deuses, a terra e o mar, os humanos e todos os animais e os objetos inanimados, Deus não poderia criar tudo aquilo? Que loucura, como és falto de conhecimento relativamente a Deus! Aqueles que falam desta maneira fazem a mais estranha das experiências: ao mesmo tempo que pretendem afirmar a sua piedade relativamente a Deus e dar-lhe graças, recusando atribuir-lhe a criação de todos os seres, não somente ignoram Deus, mas, além desta ignorância, cometem a mais negra das impiedades atribuindo-lhe como qualidades o desdém ou a impotência. Pois se Deus não é o criador de todos os seres, é porque ou desdenha criá-los ou não o pode; ora é ímpio pensar nisto.
9 Pois Deus possui apenas uma qualidade, o Bem, e o ser bom não é nem desdenhoso nem impotente. Sim, eis o que é Deus, o Bem, e a potência de tudo criar, e todo o criado vem a ser por Deus, isto é, por aquele que é bom e tem a potência de criar tudo.
Agora, se queres saber como Deus criou e como as coisas criadas vieram a ser, tu o podes: eis uma comparação bela e verossímil.
10 Veja o trabalhador lançando a semente à terra, aqui o frumento, ali a cevada, mais adiante alguma outra espécie de semente. Veja-o ainda plantado aqui uma parreira, ali uma macieira, e todas as outras espécies de árvores. É desta forma que Deus semeia no céu a imortalidade, na terra a mudança, no Todo a vida e o movimento. Esses princípios não são numerosos, mas em pequeno número e fáceis de contar: pois são quatro ao todo, mais o próprio Deus e a natureza criada, que constituem tudo quanto existe.

Continua...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A Voz do Silêncio - Segundo Fragmento

A Voz do Silêncio
Helena Blavatsky


Segundo Fragmento – Os Dois Caminhos

E AGORA, ó Mestre da compaixão, ensina tu o caminho aos outros homens. Olha, todos aqueles que, batendo para que os admitam, esperam na ignorância e na escuridão ver abrir-se a porta da suave Lei!

A voz dos candidatos:

Não quererás tu, Mestre da tua própria misericórdia, revelar a doutrina do coração 50? Recusar-te-ás a conduzir os teus servos até ao Caminho da libertação?

Diz o mestre:

Os caminhos são dois; as grandes perfeições três; seis as virtudes que transformam o corpo na árvore da sabedoria 51.

Quem se aproximará delas? Quem primeiro entrará para elas?

Quem primeiro ouvirá a doutrina dos dois caminhos em um, a verdade sem véu a respeito do Coração Secreto 52? A lei que, rejeitando o aprender, ensina a sabedoria, revela uma história de dor.

Ai de nós, ai de nós, que todos os homens possuam Alaya, sejam unos com a grande Al ma, e que, possuindo-a, Alaya de tão pouco lhes sirva!

Repara como, qual a lua se reflete nas ondas tranqüilas, Alaya é refletida pelos peque nos e pelos grandes, espelhado nos átomos ínfimos, e contudo não consegue chegar ao coração de todos. Ai de nós, que tão poucos sejam os homens que se aproveitem do dom, do dom sem preço, de aprender a verdade, a verdadeira percepção das coisas existentes, o conhecimento do não-existente!

Diz o aluno:

Ó Mestre, que farei eu para atingir a sabedoria? Ó Sábio, que farei para conseguir a perfeição?

Procura os caminhos. Mas, ó Lanu, sê puro de coração antes que comeces a tua jornada. Antes que dês o primeiro passo, aprende a separar o real do falso, o transitório do eterno. Aprende sobretudo a separar a ciência da cabeça da sabedoria da Alma, a doutrina dos “olhos” da doutrina do “coração”.

Sim, a ignorância é como uma vasilha fechada e sem ar; a Alma uma ave dentro dela. Não canta, nem pode mexer uma pena; mas jaz num torpor e morre de não poder respirar.

Mas mesmo a ignorância é melhor do que a ciência de cabeça sem a sabedoria de Alma para a iluminar e guiar.

As sementes da sabedoria não podem germinar e crescer no espaço sem ar. Para viver e comer experiência, o espírito precisa espaço e profundidade e pontos que o guiem para a Alma de Diamante 53. Não procures esses pontos no reino de Maya; mas ergue-te acima das ilusões, busca o eterno e imutável Sat 54, desconfiando das falsas sugestões de fantasia.

Porque a mente é como um espelho; cobre-se de pó ao mesmo tempo que reflete 55. Precisa que as brisas leves da sabedoria de Alma limpem o pó das nossas ilusões. Procura, ó principiante, fundir a tua mente e a tua Alma.

Afasta-te da ignorância e da ilusão também. Vira o rosto às decepções do mundo; desconfia dos teus sentidos; eles mentem. Mas dentro do teu corpo - escrínio das tuas sensações - procura no impessoal o Homem Eterno 56 e, tendo-o procurado, olha para dentro; tu és Buda 57.

Rejeita o aplauso, ó crente; o aplauso conduz à ilusão de si próprio. O teu corpo não é Personalidade, a tua Personalidade é, em si, sem corpo, e o elogio ou a censura não a atingem.

O contentamento de si próprio, ó discípulo, é uma torre altíssima, à qual um insensato orgulhoso subiu. Ali se senta em orgulhosa solidão, invisível a todos, salvo a si próprio.

A falsa ciência é rejeitada pelos sábios, e espalhada aos ventos pela Boa Lei. A sua roda gira para todos, tanto para os humildes como para os orgulhosos. A doutrina dos olhos é para a multidão; o doutrina do coração para os eleitos. Os primeiros repetem, orgulhosos: “Vede, eu sei”; os últimos, aqueles que humildemente fizeram a sua colheita, confessam em voz baixa: “Assim ouvi” 58.

“A Grande Joeira” é o nome da Doutrina do Coração, ó discípulo.

A roda da Boa Lei gira rapidamente. Noite e dia mói. Afasta o joio do trigo dourado, e a casca da farinha. A mão do Carma guia a roda; as rotações marcam o bater do coração cármico.

O verdadeiro conhecimento é a farinha, a falsa ciência é a casca. Se queres comer o pão da sabedoria, tens de amassar a tua farinha com a água límpida de Amrita 59. Mas, se amas sas cascas com o orvalho de Maya, só podes criar alimento para as pombas negras da mor te, as aves da nascença, da decadência e da tristeza.

Se te disserem que para te tornares Arhan tens de deixar de amar todas as coisas - dize-lhes que mentem.

Se te disserem que para te libertares tens de odiar a tua mãe e desprezar o teu filho; de renegar o teu pai e chamar-lhe dono de casa 60; de renunciar toda a compaixão pelos homens e pelos animais - dize-lhes que as suas palavras são falsas.

Assim ensinam os Tirthikas 61, os descrentes.

Se te ensinarem que o pecado nasce da ação e a felicidade da inação absoluta, dize-lhes que se enganam. A não-permanência da ação humana, a libertação da mente da sua escravidão pela cessação do pecado e das culpas não são coisas para os Eus Devas 62. Assim reza a doutrina do coração.

O Dharma 63 dos olhos é a corporização do externo e do não-existente.

O Dharma do coração é a corporização de Bodhi 64, o eterno e o permanente.

A lâmpada brilha bastante quando estão limpos pavio e óleo. Para limpá-los é preciso quem os limpe. A chama não sente o processo de limpeza. “Os ramos de uma árvore são sacudidos pelo vento; o tronco fica imóvel”.

Tanto a ação como a inação podem caber em ti; o teu corpo agitado, a tua mente tranqüila, a tua Alma límpida como um lago de montanha.

Queres tu tornar-te um iogue do círculo do tempo? Então, ó Lanu:

Não creias que sentando-te em florestas escuras, em orgulhosa reclusão, longe dos homens; não creias que a vida alimentada a plantas e raízes, saciada a sede com a neve da. grande Cordilheira - não creias, ó devoto, que isto te levará à meta da libertação final.

Não julgues que o partir dos ossos, o rasgar da carne e dos músculos, te unirá à tua Personalidade silenciosa 65. Não julgues que quando estão vencidos os pecados da tua for ma grosseira, ó vítima das tuas sombras 66, o teu dever está cumprido para com a natureza e com os homens.

Os bem-aventurados não quiseram fazer assim. O Leão da Lei, o Senhor da Misericórdia 67, percebendo a verdadeira causa da dor humana, imediatamente abandonou o repouso suave mas egoísta das solidões sossegadas. De Aranyaka 68 tornou-se o Mestre da humanidade. Depois de Julai 69 ter entrado para o Nirvana, ele pregou em montanhas e planícies, fez sermões nas cidades, aos Devas, aos homens e aos Deuses 70.

Semeia boas ações e colherás o seu fruto. A inação num ato de misericórdia passa a ser a ação num pecado mortal.

Assim diz o Sábio:

Por que queres abster-te da ação? Não é assim que a tua Alma conseguirá a sua liberdade. Para chegar ao Nirvana é preciso chegar ao conhecimento de Si próprio, e o conhecimento de Si próprio é filho de ações caridosas.

Tem paciência, candidato, como quem não teme falhar, nem procura triunfar. Fixa o olhar da tua Alma na estrela cujo raio és 71, a estrela chamejante que brilha nas profundezas sem luz do ser eterno, nos campos sem limite do desconhecido.

Tem perseverança, como aquele que tem de sofrer eternamente. As tuas sombras vivem e desaparecem 72; aquilo que em ti viverá para sempre, aquilo que em ti conhece (porque é o conhecimento) não é da vida transitória; é o Homem que foi, que é, e que há de ser, para quem a hora nunca soará.

Se queres colher a suave paz e o descanso, discípulo, semeia as sementes do mérito nos campos das colheitas futuras. Aceita as dores da nascença.

Afasta-te da luz do sol para a sombra, para dares mais espaço aos outros. As lágrimas que regam o solo árido da dor e da tristeza fazem nascer as flores e os frutos da retribuição cármica. Da fornalha da vida humana e do seu fumo denso, saltam chamas aladas, chamas purificadas, que, erguendo-se alto, sob o olhar cármico, tecem por fim o tecido glorioso das três vestes do Caminho 73.

Essas vestes são: Nirmanakaya, Sambhogakaya, e Dharmakaya, traje sublime.

A veste Shangna, 74 é certo, pode comprar a luz eterna. A veste Shangna, por si só, dá o Nirvana da destruição; pára o renascer, mas, ó Lanu, também mata a compaixão. Os Budas perfeitos, que vestem a glória do Dharmakaya, já não podem contribuir para a salvação humana. Ai de nós! Devem as personalidades ser sacrificadas a uma só? Deve a humanidade ser sacrificada ao bem de indivíduos?

Aprende, ó principiante, que este é o caminho aberto, o caminho para a felicidade egoísta, evitado pelos Bodhisattvas do Coração Secreto, os Budas da Compaixão.

Viver para servir a humanidade é o primeiro passo. Praticar as seis virtudes gloriosas 75 é o segundo.

Vestir a veste humilde do Nirmanakaya é rejeitar para si a felicidade eterna, para poder auxiliar a salvação humana. Chegar à felicidade do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo supremo, final - o mais alto no caminho da renúncia.

Aprende, ó discípulo, que é este o caminho secreto, escolhido pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a sua Personalidade a personalidades mais fracas.

Mas, se a doutrina do coração é alta de mais para ti, se precisas te auxiliar a ti próprio e receias oferecer auxílio aos outros - então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo; contenta-te com a doutrina ocular da Lei. Continua esperando. Porque se o Caminho Secreto não é atingível hoje, amanhã 76 estará ao teu alcance, Aprende que não há es forço, por pequeno que seja quer no bom sentido, quer no mau - que possa perder-se e desaparecer no mundo das causas. Mesmo o fumo dado ao vento não é sem rastro. “Uma palavra brusca dita em vidas passadas não se perde, mas renasce sempre” 77. A pimenteira não produz rosas, nem a estrela de prata do jasmim se torna espinho ou cardo.

Podes criar hoje tuas oportunidades de amanhã. Na Grande Jornada 78, as causas semeadas cada hora produzem cada qual a sua colheita de efeitos, porque uma justiça inalterável rege o mundo. Com o vasto alcance de ação infalível ela traz aos mortais vida de alegria ou de angústia, a prole cármica dos nossos pensamentos e ações anteriores.

Aceita, pois, tanto quanto o mérito te reserva, ó de coração paciente. Anima-te e contenta-te com a sorte. Tal é o teu Carma, o Carma do ciclo dos teus nascimentos, o destino daqueles que, na sua dor e tristeza, nascem a ti ligados, riem e choram de vida a vida, presos às tuas ações anteriores.

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Age tu por eles hoje, e eles agirão por ti amanhã.

É do botão da renúncia da sua própria personalidade que nasce o fruto doce da libertação final.

Condenado a perecer é aquele que por me do de Mara deixa de auxiliar os homens, receando agir em proveito próprio. O peregrino que quer refrescar os seus membros lassos em águas correntes, mas não mergulha por medo à corrente, arrisca-se a morrer de calor. A inação baseada no medo egoísta não pode dar senão mau fruto.

O devoto egoísta vive inutilmente. Vive em vão o homem que não realiza na vida a obra para que nasceu.

Segue a roda da vida; segue a roda do dever para com a tua raça e os do teu sangue, para com o amigo e o inimigo, e fecha a tua mente tanto aos prazeres como à dor. Esgota a lei da retribuição cármica. Adquire siddhis 79para o teu nascimento futuro.

Se não podes ser o sol, sê então o humilde planeta. Sim, se te é impossível brilhar como o sol do meio-dia sobre o monte nevado da pureza eterna, então escolhe, ó neófito, uma carreira mais humilde.

Aponta o caminho - por vagamente que o faças, e perdido entre a multidão - como a estrela da tarde àqueles que caminham pela escuridão.

Olha Migmar 80, quando nos seus véus carmesins o seu olhar se derrama sobre a Terra que dorme. Olha a aura de fogo da mão de Lhagpa 81 estendida com amorosa proteção por sobre as cabeças dos seus ascetas. Ambos são agora servos de Nyima 82, ficando, na sua ausência, como sentinelas silenciosas na noite. Foram, contudo, em kalpas passados, Nyimas brilhantes, e talvez em dias futuros se tornem outra vez dois sóis. Tais são as descidas e subidas da lei cármica na natureza.

Sê, ó Lanu, como eles. Dá luz e conforto ao peregrino cansado, e procura aquele que sabe ainda menos do que tu; que na sua desolação miserável está faminto do pão da sabedoria e do pão que alimenta a sombra, sem Mestre, esperança ou consolação, e fá-lo ou vir a Lei.

Dize-lhe, ó candidato, que aquele que faz do orgulho e do egotismo servos da devoção; que aquele que, tenaz da sua existência, em todo o caso depõe a sua paciência e submissão à Lei como uma flor aos pés de Shakya-Thub-pa 83, se torna um Srotapatti 84 neste nascimento. Os Siddhis da perfeição podem ainda estar longe, muito longe; mas está dado o primeiro passo, ele entrou para o rio, e pode adquirir a visão da águia das montanhas, o ouvido da tímida corça.

Dize-lhe, ó aspirante, que a verdadeira devoção pode tornar a dar-lhe o conhecimento, aquele conhecimento que era seu nas suas vidas anteriores. A visão dévica e o ouvido dévico não se podem obter em uma breve vida.

Sê humilde, se queres adquirir a sabedoria: sê mais humilde ainda, quando a tiveres adquirido.

Sê como o oceano, que recebe todos os rios e riachos. A calma imensa do oceano não se perturba; recebe-os e não os sente.

Domina o teu ser interior com o teu ser divino. Domina o divino com o eterno.

Sim, grande é aquele que mata o desejo: maior ainda é aquele em quem a divina Personalidade matou o próprio conhecimento do desejo.

Põe-te de guarda ao inferior, para que não macule o superior.

O caminho para a libertação final está dentro da tua personalidade. Esse caminho começa e acaba fora da personalidade 85.

Sem elogios de todos os homens e humilde é a mãe de todos os rios na vista orgulhosa de Tirthika 86; vazia a forma humana, ainda que cheia das águas suaves de Amrita ao olhar dos insensatos. E, contudo, a origem dos rios sagrados é a terra sagrada 87, e aquele que possui a. sabedoria é respeitado por todos os homens.

Arhans e Sábios da visão ilimitada 88 são raros como a flor da árvore Udumbara. Os Arhans nascem à meia-noite, com a planta sagrada de nove e sete caules 89, a flor sagrada que desabrocha e floresce na escuridão, saída do orvalho puro e do leito gelado das alturas nevadas, alturas que nenhum pé pecador pisou.

Nenhum Arhan, ó Lanu, se torna um naquela vida em que pela primeira vez a Alma começa a ansiar pela libertação final. E, contudo, ó ansioso, a nenhum guerreiro oferecendo-se voluntariamente para a terrível luta entre o vivo e o morto 90, a nenhum recruta pode ser recusado o direito de entrar no caminho que conduz ao campo de batalha.

Porque ou vence ou cai.

Sim, se vence, o Nirvana será seu. Antes de abandonar a sua sombra, de enjeitar a sua veste mortal, essa causa abundante de angústia e de dor ilimitável, os homens honrarão nele um Buda grande e sagrado.

E se cai, mesmo assim não cai em vão; os inimigos que abateu na última batalha não tornarão a viver na sua próxima encarnação.

Mas, se queres chegar ao Nirvana, ou rejeitar esse prêmio 91, não deixes o fruto da ação e da inação ser o teu motivo, ó de coração indômito.

Aprende que ao Bodhisattva que troca a libertação pela renúncia para vestir as angústias da vida secreta 92, chama-se três vezes venerado, ó candidato à dor através dos ciclos.

O Caminho é um, discípulo, mas, no fim, duplo. Marcados estão os seus estágios por quatro e sete portas. A uma extremidade a felicidade imediata, à outra, felicidade renunciada. Ambos são a recompensa do mérito: a escolha a ti pertence.

O um toma-se os dois, o Aberto e o Secreto 93. O primeiro leva à meta, o segundo à imolação de si próprio.

Quando ao permanente o mutável se sacrifica, o prêmio é teu; volta a gota ao lugar de onde veio, O Caminho Aberto conduz à mudança imutável - Nirvana, o estado glorioso de absoluto, a felicidade para além da concepção humana.

Assim, o primeiro caminho é a Libertação.

Porém, o segundo caminho é a Renúncia; por isso é chamado o Caminho da Dor.

O Caminho Secreto conduz o Arhan a uma angústia mental inexprimível; dor pelos mortos que estão vivos 94, e compaixão inútil pelos homens da tristeza cármica; o fruto do Car ma não ousam os Sábios fazer parar.

Porque está escrito: “Ensina a evitar todas as causas; à maré do efeito, como à grande onda, deixarás seguir o seu curso”.

O Caminho Aberto, mal chegaste ao seu fim, levar-te-á a rejeitar o corpo bodhisattvico, e far-teá entrar para o estado três vezes glorioso de Dharmakaya 95, que é o eterno esquecimento dos homens e do mundo.

A estrada secreta também conduz à felicidade paranirvânica - mas ao termo de kalpas inúmeros; Nirvanas ganhos e perdidos por uma piedade e compaixão ilimitadas pelo mundo de mortais iludidos.

Mas diz-se: “O último será o maior”. Samyak Sambuda, o Mestre da perfeição, abandonou a sua Personalidade para salvação do mundo, parando no limiar do Nirvana, o estado de pureza.

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Tens agora o conhecimento a respeito dos dois Caminhos. Chegará o momento em que terás de escolher, ó de Alma ansiosa, quando tiveres chegado ao fim e passado as sete portas. A tua mente está lúcida. Já não estás preso a pensamentos ilusórios, porque aprendeste tudo. Sem véu está ante ti a Verdade, e fita-te gravemente. Diz ela:

“Doces são os frutos do descanso e da libertação por causa da Personalidade; porém, mais doces ainda os frutos do dever longo e amargo; sim, da renúncia por amor aos outros, aos homens que sofrem”.

Aquele que se converte em Pratyeka-Buda só presta obediência à sua Personalidade.

O Bodhisattva que ganhou a batalha, que tem o prêmio na mão, mas exclama, na sua divina compaixão:

“Por amor aos outros abandono esta grande recompensa” - realiza a renúncia maior.

Ele é um Salvador do Mundo.

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Repara! A meta da felicidade e o longo Caminho da dor estão no extremo fim. Podes escolher um ou outro, ó aspirante à tristeza, através dos ciclos que hão de vir!

Om vairapani hum.


sábado, 18 de janeiro de 2020

Jesus Cristo segundo São João - Capítulo 08

JOÃO 8


A mulher adúltera - 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»

6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.

7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» 8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.

10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»


Jesus Cristo, luz do mundo - 12Jesus falou-lhes novamente: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.» 13Disseram-lhe, então, os fariseus: «Tu dás testemunho a favor de ti mesmo: o teu testemunho não é válido.» 14Jesus respondeu-lhes: «Ainda que Eu dê testemunho a favor de mim próprio, o meu testemunho é válido, porque sei donde vim e para onde vou. Vós é que não sabeis donde venho nem para onde vou. 15Vós julgais segundo critérios humanos; Eu não julgo ninguém. 16Mas, mesmo que Eu julgue, o meu julgamento é verdadeiro, porque não estou só, mas Eu e o Pai que me enviou. 17Na vossa Lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é válido; 18sou Eu a dar testemunho a favor de mim, e também dá testemunho a meu favor o Pai que me enviou.» 19Perguntaram-lhe, então: «Onde está o teu Pai?» Jesus respondeu: «Não me conheceis a mim, nem ao meu Pai. Se me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.»

20Jesus pronunciou estas palavras junto das caixas das ofertas, quando estava a ensinar no templo. E ninguém o prendeu, porque ainda não tinha chegado a sua hora.


Revelações de Jesus; incredulidade dos ouvintes - 21Uma outra vez, Jesus disse-lhes: «Eu vou-me embora: vós haveis de procurar-me, mas morrereis no vosso pecado. Vós não podereis ir para onde Eu vou.» 22Então, os judeus comentavam: «Será que Ele se vai suicidar, dado que está a dizer: ‘Vós não podeis ir para onde Eu vou’?»

23Mas Ele acrescentou: «Vós sois cá de baixo; Eu sou lá de cima! Vós sois deste mundo; Eu não sou deste mundo. 24Já vos disse que morrereis nos vossos pecados. De facto, se não crerdes que Eu sou o que sou, morrereis nos vossos pecados.» 25Perguntaram-lhe, então: «Quem és Tu, afinal?» Disse-lhes Jesus: «Absolutamente aquilo que já vos estou a dizer! 26Tenho muitas coisas que dizer e que julgar a vosso respeito; mas do que falo ao mundo é do que ouvi àquele que me enviou, e que é verdadeiro.»

27Eles não perceberam que lhes falava do Pai. 28Disse-lhes, pois, Jesus: «Quando tiverdes erguido ao alto o Filho do Homem, então ficareis a saber que Eu sou o que sou e que nada faço por mim mesmo, mas falo destas coisas tal como o Pai me ensinou. 29E aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou só, porque faço sempre aquilo que lhe agrada.»

30Quando expunha estas coisas, muitos creram nele. 31Então, Jesus pôs-se a dizer aos judeus que nele tinham acreditado: «Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, 32conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» 33Replicaram-lhe: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém! Como é que Tu dizes: ‘Sereis livres’?»

34Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o pecado é servo do pecado, 35e o servo não fica na família para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Pois bem, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois descendentes de Abraão; no entanto, procurais matar-me, porque não aderis à minha palavra. 38Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai.» 39Eles replicaram-lhe: «O nosso pai é Abraão!» Jesus disse-lhes: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão! 40Agora, porém, vós pretendeis matar-me, a mim, um homem que vos comunicou a verdade que recebi de Deus. Isso não o fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai.» Eles disseram-lhe, então: «Nós não nascemos da prostituição. Temos um só Pai, que é Deus.»

42Disse-lhes Jesus: «Se Deus fosse vosso Pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que Eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou. 43Porque não entendeis a minha linguagem? Porque não podeis ouvir a minha palavra? 44Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. 45Por isso, não acreditais em mim, porque vos digo a verdade. 46Quem de vós pode acusar-me de pecado? Se digo a verdade, porque não me acreditais? 47Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; vós não as escutais, porque não sois de Deus.»

48Os judeus replicaram-lhe: «Não temos nós razão ao dizer que és um samaritano e que tens demónio?» 49Respondeu Jesus: «Eu não tenho demónio. Eu honro o meu Pai, ao passo que vós me injuriais. 50Eu não procuro a minha glória; há alguém que a procura e faz justiça. 51Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá.» 52Disseram-lhe, então, os judeus: «Agora é que estamos certos de que tens demónio! Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: ‘Se alguém observar a minha palavra, nunca experimentará a morte’? 53Porventura és Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Afinal, quem é que Tu pretendes ser?» 54Jesus respondeu:

«Se Eu me glorificar a mim mesmo, a minha glória nada valerá. Quem me glorifica é o meu Pai, de quem dizeis: ‘É o nosso Deus’; 55e, no entanto, não o conheceis. Eu é que o conheço; se dissesse que não o conhecia, seria como vós: um mentiroso. Mas Eu conheço-o e observo a sua palavra. 56Abraão, vosso pai, exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz.»

57Disseram-lhe, então, os judeus: «Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?» 58Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: antes de Abraão existir, Eu sou!»

59Então, agarraram em pedras para lhe atirarem. Mas Jesus escondeu-se e saiu do templo.



Continua....

sábado, 11 de janeiro de 2020

Corpus Hermeticum XIII

CORPUS HERMETICUM
De Hermes Trismegisto


XIII - DISCURSO SECRETO SOBRE A MONTANHA, RELATIVO À REGENERAÇÃO E A REGRA DO SILÊNCIO.
(HERMES TRISMEGISTOS A SEU FILHO TAT)

1 - Nas Lições Gerais, ó pai, falastes apenas através de enigmas e sem encher de luz a minha compreensão quando trataste da atividade divina, não me deste a desvelação, sob o pretexto de que ninguém poderia ser salvo antes da regeneração. Mas como eu to suplicasse durante a descida da montanha, após tua conversação comigo, como eu to interrogasse acerca da doutrina da regeneração a fim de apreendê-la, visto que é o único ponto da doutrina que ignoro, prometeste-me transmiti-la "quando eu estivesse próximo a tornar-me estranho ao mundo". Eis- me pronto, fortifiquei meu espírito contra a ilusão do mundo. Suprime então, ó pai, as minhas faltas transmitindo-me, como prometeste, o processo da regeneração, fazendo-o conhecido de viva voz ou por meio secreto. Eu ignoro, ó Trismegistos, de qual matriz nasceu o Homem, e de qual semente.
2 - Meu filho, é a Sabedoria inteligente no Silêncio e a semente o verdadeiro Bem. - Mas quem semeia, ó pai? pois estou completamente perplexo. - É a Vontade de Deus, meu filho. - E de que forma é o engendrado, ó pai? pois não pode participar em nada da minha substância. - O engendrado será diferente, será deus filho de Deus, O Todo no Todo, composto de todas as Potências. - Propões-me um enigma, pai, e não falas como um pai a seu filho. - Este tipo de coisa não se ensina, meu filho, mas, quando quer, Deus proporciona-lhe a reminiscência.
3 - Tu me dás, ó pai, explicações impossíveis e forçadas, é esta a razão pela qual farei uma justa réplica: "Nasci como um filho estrangeiro à raça de meu pai." Não me recuse ciumentamente tua ciência, pai, sou teu filho legítimo: expõe-me completamente o modo de regeneração. - Que direi, meu filho? nada mais posso dizer que isto: em mim mesmo uma visão imaterial, produzida pela misericórdia de Deus, sai de mim mesmo para entrar em um corpo imortal e não sou mais agora do que era mas fui engendrado no Intelecto. Esta coisa não pode ser ensinada e não pode ser vista com este elemento formado de matéria, formado para que através do mesmo possa se ver aqui embaixo. Eis também por que não me preocupo desta primeira forma composta que foi a minha. Não percebo mais as cores, nem o sentido do tato, nem medida no espaço, tudo isto me é estranho. Agora me vês, meu filho, com os olhos, mas o que sou não podes compreender olhando-me com os olhos do corpo e pela visão sensível, não são com estes olhos que posso ser visto agora, meu filho.
4 - Atiraste-me numa loucura furiosa e num aturdimento espiritual, ó pai: pois não me vejo neste momento. - Apraz aos céus, criança, que tu também, saias de ti mesmo, como acontece àqueles que sonham mas, no teu caso, sem dormir. - Diga-me isto ainda: quem é o operador na obra da regeneração? - O filho de Deus - um ser humano como os outros - pelo querer de Deus.
5 - Agora, com um golpe seguro, atiraste-me num estupor que me tira a palavra. Tendo perdido meus espíritos - pois te vejo sempre com a mesma estatura, ó pai, com a mesma forma exterior. - E é nisto que te enganas, pois a forma mortal muda diariamente, evolui com o tempo por crescer ou diminuir, como coisa mentirosa.
6 - Que existe então que seja verdadeiro, ó Trismegistos? - O impoluto, o que não possui limite, nem cor, nem forma, o que é imutável, nu, brilhante, o que não pode ser apreendido por outra coisa que si mesmo, o Bem inalterável, o Incorpóreo. - Eis-me realmente louco, pai, pensei que me tivesses tornado sábio, e eis que se obstruiu a percepção que tinha de meu pensamento. - E isto está certo meu filho, o que se coloca no alto como o fogo; embaixo, como a terra; o que é líquido como a água, isso que sopra pelo universo todo como o ar. . . mas como poderias perceber por meio dos sentidos, o que não é rígido, nem líquido, o que não pode ser fechado, nem inserido, e que não é apreendido a não ser pelos efeitos de sua potência e de sua energia, isto que exige alguém capaz de conceber o nascimento de Deus?

7 E disto sou incapaz, ó pai? - Que não seja assim, meu filho. Toma-o a ti e ele virá; quere-o e se produzirá; detém a atividade dos sentidos corporais e então se produzirá o nascimento da divindade; purifica-te das punições irracionais da matéria. - Possuo então manchas em mim, ó pai? - E não em pequeno número, criança, mas terríveis e numerosas. - Eu as desconheço, ó pai.
- Esta ignorância, minha criança, é a primeira das punições; a segunda é a tristeza; a terceira é a incontinência; a quarta, a concupiscência; a quinta, a injustiça; a sexta, a cupidez; a sétima, o engano; a oitava, a inveja; a nona, a fraude; a décima, a cólera; a décima primeira, a precipitação; a décima segunda, a maldade. Estas punições são doze em número; mas sob elas, outras mais numerosas, por intermédio do corpo, forçam o ser humano interior a sofrer por meio dos sentidos. Contrariamente se afastam do ser humano do qual Deus teve misericórdia, não se afastam maciçamente, é verdade, mas nisto é que consiste a regeneração.
8 Agora, não fala mais, meu filho, e guarda um religioso silêncio: como recompensa a misericórdia não deixará de descer de Deus sobre nós. Rejubila-te agora, meu filho, eis que te purificam profundamente as potências de Deus pela conjunção dos membros do Verbo. Veio até nós o conhecimento de Deus - e pela sua vinda a ignorância foi caçada.
Veio até nós o conhecimento da alegria: pela sua chegada a tristeza fugirá para aqueles que tem lugar para recebê-la. 9 Oh! potência deliciosa! façamos-Ihe, meu filho, a acolhida mais amável: vê como pela sua chegada expulsou a incontinência. Em quarto lugar, agora, eu chamo o endurecimento, esta potência que se opõe à concupiscência. Os degraus que vês, meu filho, são a sede da justiça: vê que, sem processo caçou a injustiça. Tornamo-nos justos, criança, agora que não mais temos injustiça. Chamo a nós como sexta potência e que luta contra a cupidez, a bondade que divide. É a cupidez parte. Já se apresenta a verdade e o engano parte e a verdade vem a nós. Veja como o bem atingiu a plenitude, meu filho, com a chegada da verdade. Pois a inveja se afasta bem de nós e depois da verdade, o bem chegou, acompanhado da vida e da luz, e não fomos assolados por mais nenhuma punição das trevas, mas estas é que voaram, vencidas, com um grande rumor de asas.
10 Conheces agora o modo da regeneração, meu filho. Pela vinda da Década, meu filho, a geração espiritual foi feita em nós e ela caça a Dodécada e fomos divinizados por este nascimento. Aquele que foi gratificado, segundo a misericórdia, por este nascimento segundo Deus, tendo abandonado a sensação corporal, conhece a si mesmo como sendo constituído pelas Potências divinas e se rejubila em seu coração.
11 Tornado inquebrantável por Deus, ó pai, represento-me as coisas, não pela visão dos olhos, mas pela energia espiritual que recebo das Potências. Estou no céu, na terra, na água, no ar, estou nos animais, nas plantas, no ventre, antes do ventre, depois do ventre, em todo lugar. Mas diga-me ainda, como as punições das trevas, que são doze em número, são repelidas por dez Potências? Como isso se dá, ó Trismegistos? 12 Esta rede, meu filho, fora da qual saímos, foi constituída pelo círculo zodiacal, que por sua vez é composto de doze elementos de mesma natureza e que pode tomar todas as formas para estupor dos homens. Entre essas punições existem duplas, meu filho, que estão unidas na sua ação (na verdade, a precipitação é inseparável da cólera) e é mesmo impossível distingüi-las. É natural portanto, pela justa razão, que essas punições retirem-se quando são caçadas pelas dez Potências, isto é a Década. Pois a Década é a geradora da alma. Vida e Luz estão unidas, e então nasce o número da Unidade, do Espírito. Portanto, pela razão, a Unidade contém a Década e a Década, a Unidade.
13 - Pai, vejo o Todo e me vejo no Intelecto. - Eis precisamente a regeneração, meu filho: não mais formar suas representações sob a figura do corpo tridimensional - regeneração feita graças a este discurso sobre a regeneração que escrevi somente para ti, a fim de que não divulguemos o Todo aos habitantes do pântano de papiros, mas somente àqueles que Deu escolheu.
14 - Diga-me, ó pai, esse novo corpo composto de Potências, sofrerá um dia a dissolução? - Silêncio! não digas coisas impossíveis, pois isto seria um pecado e o olho de teu intelecto seria afetado por uma sujidade. O corpo sensível da natureza está bem afastado da

geração substancial, pois um é dissolúvel, o outro indissolúvel, um mortal, o outro imortal. Não sabes que nasceste deus e filho do Um, o que sou também?
15 - Pai, quero este louvor em forma de hino que escutaste cantar às Potências quando atingiste a Ogdoada. - Segundo a Ogdoada desvelada por Poimandres, eu aprovo, criança, a tua vontade de quebrar a rede, pois agora, és inteiramente puro. Poimandres, o Intelecto da Soberania, nada mais me revelou do que está escrito, sabendo que eu seria capaz de tudo compreender e ouvir o que quisesse e tudo ver, prescreveu-me fazer o que fosse belo. Também cantam, em todas coisas, as Potências que estão em mim.
16 - Pai, quero ouvir, quero conhecer tudo isto! - Silêncio então, meu filho, escuta agora a bênção bem adaptada, o hino da regeneração: manifestá-lo-ia, segundo meu pensamento, somente a ti, desta forma sem reservas, ao fim de tudo. Também este hino não é objeto de ensino, mas permanece encerrado no meio do silêncio. Então, meu filho, coloca-te em um lugar a céu aberto, e face ao vento do sul, no momento do pôr do sol, adora; e da mesma forma ao nascer do sol, voltando-to para o vento do este. Silêncio então, criança.

Hino Secreto; Discurso IV

17 "- Que toda natureza no mundo ouça o som deste hino. Abre-te terra; que se abram à minha voz os fechos da chuva: não vos agiteis mais, árvores! Eu vou cantar ao Senhor da Criação e o Todo e o Um. Abri-vos céus, ventos, detende vossos sopros, que o círculo imortal de Deus ouça meu verbo. Eu vou cantar Aquele que criou o universo, que fixou a terra e suspendeu o céu, que ordenou à água doce o sair do oceano e estender-se sobre a terra habitada e desabitada, para a subsistência a criação de todos os humanos, que ordenou ao fogo que aparecesse para qualquer uso que dele quisessem fazer os deuses e os homens. Todos juntos elogiemos àquele que plana acima de todos os céus, ao Criador de Toda a natureza. É ele que é o olho do intelecto, que receba então o elogio de minhas Potências.
18 Potências que sois em mim, cantai o Um e o Todo: cantai em uníssono com minha vontade, vós todas, Potências que sois em mim. Santo conhecimento, iluminado por ti, é graças a ti que celebro e luz inteligível - me rejubilo na alegria do intelecto. Vós todas, Potências, cantai o hino comigo. E tu também, canta por mim, continência! minha justiça, canta o Justo por mim; minha bondade liberal, canta o Todo por mim; canta, verdade, a Verdade; canta o Bem, tu, o bem; Vida e Luz, é de vós que advém a bênção e é a vós que retorna. Rendo-to graças, Pai, energia das Potências; rendo-to graças, Deus, potência de minhas energias. Teu Verbo, por mim, a ti canta; por mim, recebe o Todo em palavra, como sacrifício espiritual. 19 Eis o que giram as potências que estão em mim: cantam o Todo, cumprem a tua vontade. Tua vontade vem de ti e a ti retorna, o Todo. Recebe de todos, o sacrifício espiritual. O Todo que está em nós, salva-o, Vida; ilumina-o, Luz, Espírito, Deus! Pois de teu Verbo, é Noús que é o pastor. O portador do espírito, Demiurgo, és tu que és Deus. 20 Eis o que clama o ser humano que a ti pertence, através do fogo, através do ar, através da terra, através da água, através do sopro, através de tuas criaturas. Obtive de ti a bênção de Aíòn e segundo meu desejo, pela tua vontade alcancei o repouso. Vi pela tua vontade esta bênção pronunciada."
21 - Ó pai, coloquei-o também em meu mundo. - Dize "no mundo inteligível", criança. - No mundo inteligível, pai. Tenho potência, pela virtude de teu hino e de tua bênção, meu intelecto está totalmente iluminado. Mais ainda, eu quero oferecer "de profundis" um louvor a Deus. - Não o faças levianamente, ó meu filho. - O que contemplo no Intelecto, ó pai, o digo: "A ti, primeiro autor da obra da geração, eu Tat, a meu Deus, ofereço sacrifícios espirituais. Deus, Pai, Senhor, Intelecto, recebe de mim os sacrifícios espirituais que queiram. Pois, é pela tua vontade que tudo se cumpre". Ofereces, meu filho, um sacrifício agradável a Deus, Pai de todos os seres. Mas acrescenta, criança, "pelo Verbo".
22 - Agradeço-te, pai os conselhos que me destes na minha prece. - Eu me rejubilo, criança, dos bons frutos que tirastes da Verdade, uma colheita imortal. Agora que aprendeste isto

de mim, promete-me o silêncio relativamente a esse poder miraculoso, não revelando a ninguém, criança, o modo de transmissão da regeneração a fim de que não sejamos contados entre os divulgadores. Eis o bastante, ambos estivemos muito ocupados: eu em falar, tui em me escutares. Agora, conheces a ti mesmo, conheceste na luz do Intelecto e a nosso Pai comum.

Continua...

sábado, 4 de janeiro de 2020

Reflexão Casual LXXXIX



" Não aspire somente a utopia, viva essa utopia! Da forma mais intensa possível, por mais que seja em proporções minimas e insignificante, pois essa realidade será para si a maior e a mais concreta experiência jamais vivida antes e que te marcará por toda vida. "

Paulinopax